A África em Nós: Transculturalidade e Resistência na Luta Antirracista Global
A obra Eu Tenho a África Dentro de Mim, organizada por Pedrina de Lourdes Santos, Luciana de Oliveira e Ester Antonieta Santos, oferece um poderoso testemunho sobre a importância da ancestralidade africana e da luta por identidade e pertencimento no Brasil. No entanto, ao aprofundarmos a análise do livro, percebemos como essas questões ecoam em movimentos globais de luta antirracista, revelando um panorama de resistência e solidariedade transcultural que conecta o Brasil a diversas partes do mundo.
No centro da narrativa está a ideia de que a herança africana não é apenas uma memória distante, mas uma força viva que molda identidades, histórias e culturas. Essa perspectiva se conecta profundamente com movimentos como o Black Lives Matter (BLM) nos Estados Unidos, denunciando o racismo sistêmico e a violência policial (Taylor, 2016, p. 43), e os movimentos contra o genocídio da juventude negra no Brasil (Nascimento, 2019, p. 89). Ambos os contextos evidenciam como as estruturas de opressão racial transcendem fronteiras, exigindo respostas locais e globais.
Além disso, o livro nos convida a refletir sobre como a luta antirracista brasileira se relaciona com outros movimentos históricos e contemporâneos. Por exemplo, o Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos não apenas influenciou, mas também foi influenciado pelas resistências culturais no Brasil. A celebração do orgulho negro e o uso da música e da literatura como ferramentas de transformação social, vistos em ambos os contextos, demonstram como as experiências de luta podem se complementar e inspirar mutuamente (Andrews, 1996, p. 132).
Outro paralelo significativo é com o Movimento Anti-Apartheid na África do Sul, que, assim como o Brasil, enfrentou um racismo estrutural profundamente enraizado. Enquanto o Brasil luta com as consequências de sua história escravista, a África do Sul ainda enfrenta os legados do apartheid. Em ambos os casos, a resistência negra encontrou força nas comunidades, especialmente nas mulheres, que desempenharam papéis fundamentais na construção de estratégias de sobrevivência e resistência (Mandela, 1994, p. 278).
A obra também dialoga com o Movimento Pan-Africanista, que promoveu a solidariedade entre povos de origem africana em todo o mundo. Esse movimento ressoa na luta afro-brasileira, especialmente no reconhecimento da importância da memória e da valorização da cultura afrodescendente (Adi, 2018, p. 67). Essa conexão é evidenciada na celebração do Dia da Consciência Negra no Brasil, que pode ser vista como um reflexo das ideias pan-africanistas adaptadas ao contexto brasileiro.
Por outro lado, a influência do Movimento Negritude, liderado por intelectuais africanos e caribenhos como Léopold Sédar Senghor e Aimé Césaire, também merece destaque. A Negritude, que celebra a cultura negra como resistência ao colonialismo, encontra eco na literatura afro-brasileira, especialmente nos escritos de Abdias do Nascimento e Carolina Maria de Jesus. Essa convergência reforça a importância de narrativas que valorizem a ancestralidade africana e combatam a exclusão histórica (Césaire, 1955, p. 13).
Por fim, os movimentos de Descolonização na África e na Ásia oferecem um importante paralelo com as lutas no Brasil. A busca por autonomia cultural e política nesses continentes inspira o fortalecimento de movimentos que promovem a preservação das tradições africanas, como o candomblé e a capoeira, elementos centrais da cultura afro-brasileira (Santos, 2008, p. 112).
A interconexão entre essas experiências reforça a ideia de que a luta antirracista é, ao mesmo tempo, local e global. Ao ler Eu Tenho a África Dentro de Mim, somos lembrados de que a resistência negra no Brasil não ocorre isoladamente, mas é parte de uma rede de solidariedade transcultural que transcende fronteiras. O livro não apenas narra uma história de pertencimento, mas também aponta para a necessidade de continuarmos conectados com as lutas globais, reconhecendo que a ancestralidade africana é uma fonte de força e união para os povos de todo o mundo.
Referências
- Adi, H. (2018). Pan-Africanism: A History. Bloomsbury.
- Andrews, G. R. (1996). Black and White in São Paulo, Brazil, 1888–1988. University of Wisconsin Press.
- Césaire, A. (1955). Discourse on Colonialism. Monthly Review Press.
- Mandela, N. (1994). Long Walk to Freedom: The Autobiography of Nelson Mandela. Little, Brown and Company.
- Nascimento, A. (2019). O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado. Perspectiva.
- Santos, J. L. (2008). Afro-Brazilian Culture and Politics: An Anthropological Perspective. University Press of Florida.
- Taylor, K. Y. (2016). From #BlackLivesMatter to Black Liberation. Haymarket Books.