Conhecimento Aberto e Diamond Open Access: um Ensaio Crítico sobre a Democratização da Ciência
Ensaio critico :
O conhecimento científico constitui um dos patrimônios mais valiosos da humanidade, mas a forma como ele circula ainda é marcada por barreiras que limitam sua função social. Embora grande parte da produção acadêmica seja financiada com recursos públicos, os resultados de muitas pesquisas permanecem inacessíveis à maior parte da população devido aos altos custos de assinatura de periódicos e bases de dados. Nesse sentido, discutir o acesso aberto não se configura apenas como uma questão técnica, mas, sobretudo, como uma escolha ética e política que envolve o reconhecimento da ciência como bem comum.
O movimento de Acesso Aberto ganhou força a partir do início dos anos 2000, com declarações como a de Budapeste (2002), a de Bethesda (2003) e a de Berlim (2003), que estabeleceram princípios orientadores para que a produção científica fosse disponibilizada sem restrições financeiras ou legais, permitindo leitura, cópia, distribuição e reutilização em novas pesquisas. Para Suber (2012), um dos principais teóricos desse movimento, o acesso aberto é a forma de remover barreiras de preço e de permissão, ampliando tanto o alcance quanto o impacto da ciência. Trata-se, assim, de um instrumento de democratização cognitiva que, como observa Guédon (2008), permite enfrentar a desigualdade estrutural entre países centrais e periféricos. A lógica restritiva de circulação do conhecimento reforça assimetrias históricas, de modo que o Acesso Aberto se apresenta como mecanismo de justiça e equidade no campo científico.
Diversos modelos de acesso aberto foram sendo desenvolvidos ao longo dos anos. O chamado Green Open Access refere-se ao depósito de versões de artigos em repositórios institucionais, ainda que o periódico oficial seja pago. O modelo Gold Open Access prevê a publicação em revistas de livre acesso, mas mediante pagamento de taxas de processamento de artigos, conhecidas como APCs. Há ainda o modelo híbrido, em que periódicos por assinatura permitem que alguns artigos sejam abertos mediante pagamento. Entre esses formatos, o Diamond Open Access desponta como o mais inclusivo, pois elimina qualquer cobrança, seja para autores, seja para leitores. Como argumentam Fuchs e Sandoval (2013), esse é o modelo que garante que o conhecimento científico circule como bem público, protegido da mercantilização e preservado em sua integridade.
O Brasil é referência internacional nesse debate devido à criação da plataforma SciELO (Scientific Electronic Library Online) em 1997, que consolidou uma tradição de publicação científica em acesso aberto diamante. Ao não cobrar taxas de publicação e permitir acesso gratuito ao leitor, a SciELO garantiu visibilidade internacional à produção latino-americana e tornou-se exemplo global de democratização do conhecimento (PACKER, 2014). Essa experiência mostra como iniciativas locais, baseadas em financiamento público e em colaborações institucionais, podem construir alternativas concretas ao modelo hegemônico das grandes editoras comerciais.
O Diamond Open Access, nesse contexto, não representa apenas uma solução técnica, mas um horizonte ético e político. Guédon (2017) lembra que ele rompe com a lógica mercantilizada da ciência e recoloca a circulação do conhecimento a serviço da coletividade. Ao garantir gratuidade total, esse modelo amplia o impacto social da pesquisa, pois permite que profissionais da saúde, professores, gestores públicos e cidadãos tenham acesso direto a descobertas científicas capazes de transformar práticas e realidades. Esse impacto é particularmente significativo no Sul Global, onde a exclusão informacional tem consequências diretas na capacidade de inovação e no desenvolvimento social.
É nesse horizonte que o Caderno Científico Naturo se insere. Ao adotar o modelo Diamond Open Access como princípio editorial, o CCN garante que não haja barreiras de publicação para os pesquisadores nem barreiras de acesso para os leitores. Essa escolha fortalece o compromisso do Instituto Naturo com a democratização do conhecimento, valorizando a ciência interdisciplinar nas áreas de saúde, espiritualidade, turismo, sustentabilidade e tecnologia. Mais do que uma estratégia editorial, trata-se de uma posição política clara: a defesa da ciência como patrimônio público, disponível a todos, e a valorização de práticas acadêmicas baseadas em ética, transparência e colaboração.
Assim, reafirmar o ideal de conhecimento aberto significa reafirmar o compromisso com a essência da ciência: produzir e compartilhar saberes que pertencem à humanidade. O modelo Diamond Open Access é, portanto, a expressão mais justa e equitativa desse princípio, e sua adoção pelo Caderno Científico Naturo constitui uma contribuição concreta para a construção de uma ciência aberta, democrática e transformadora.
Referências
FUCHS, C.; SANDOVAL, M. The Diamond Model of Open Access Publishing: Why Policy Makers, Scholars, Universities, Libraries, Labour Unions and the Publishing World Need to Take Non-Commercial, Non-Profit Open Access Serious. tripleC, v. 11, n. 2, p. 428-443, 2013.
GUÉDON, J.-C. Open Access and the divide between “mainstream” and “peripheral” science. In: JACOBS, N. (org.). Open Access: Key strategic, technical and economic aspects. Oxford: Chandos, 2008. p. 153-162.
GUÉDON, J.-C. Science et biens communs: L’open access comme une révolution inachevée. Paris: OpenEdition Press, 2017.
PACKER, A. L. The SciELO Open Access: a gold way from the South. Canadian Journal of Higher Education, v. 44, n. 3, p. 34–53, 2014.
SUBER, P. Open Access. Cambridge: MIT Press, 2012.
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- Dra Zilda Maria A. Matheus
- Doutora em Ciências da Comunicação (Turismo) pela ECA/USP, Pesquisadora no Naturo Academic Research Institute.
- E-mail: contat@naturoinstitute.org7