Palavras que ferem: quando a linguagem começa a dividir uma sociedade
- Zilda Maria Alves Matheus PhD
Founder & Director - Naturo Academic Research Institute
Da ofensa individual à construção do “nós” e “eles”
Há palavras que desaparecem poucos minutos depois de serem pronunciadas. Outras permanecem conosco durante anos.
Quase todos somos capazes de recordar uma palavra que nos feriu. Um apelido na infância, uma observação sobre nosso corpo, nossa origem, nossa idade, nossa profissão ou nossa maneira de falar. Às vezes, quem pronunciou a palavra sequer se lembra dela. Quem a recebeu, porém, pode carregá-la por muito tempo.
Por que algumas palavras têm esse poder?
A resposta não está apenas no dicionário.
Uma palavra adquire significado na relação entre quem fala, quem ouve e o contexto em que é pronunciada. Dita por um desconhecido, pode ser irrelevante. Pronunciada por alguém que amamos, por uma autoridade ou diante de um grupo, a mesma palavra pode produzir efeitos inteiramente diferentes.
Mas existe uma pergunta ainda maior:
O que acontece quando uma palavra deixa de ferir apenas uma pessoa e começa a ferir uma sociedade?
É nesse deslocamento — da experiência individual para a vida coletiva — que proponho esta reflexão.
Quando o nome deixa de ser apenas um nome
Nomear parece uma ação inocente. Precisamos de palavras para organizar o mundo.
Nomeamos objetos, lugares, acontecimentos e pessoas. Criamos categorias para compreender a realidade. Dizemos criança, adulto, estrangeiro, trabalhador, empresário, estudante, aposentado.
O problema começa quando uma categoria deixa apenas de identificar uma característica e passa a interferir no valor social atribuído à pessoa que a recebe.
Goffman (1963), ao estudar o estigma, analisou como determinados atributos podem adquirir centralidade na identidade social atribuída a um indivíduo, influenciando a maneira como ele é percebido nas interações sociais.
Essa diferença parece pequena. Não é.
O indivíduo possui uma história, uma família, desejos, medos, contradições e projetos. O rótulo simplifica tudo isso.
A pessoa transforma-se em categoria.
E categorias podem ser ordenadas: desejáveis ou indesejáveis, normais ou anormais, confiáveis ou perigosas, pertencentes ou estrangeiras.
A linguagem começa, assim, a fazer algo além de descrever o mundo.
Ela passa também a organizá-lo socialmente.
Quem tem o poder de nomear?
Nem todas as palavras possuem o mesmo peso porque nem todas as pessoas ocupam a mesma posição na sociedade.
Uma criança chamando outra por um apelido no pátio da escola e uma autoridade pública classificando milhões de pessoas com determinada expressão não são situações equivalentes.
A perspectiva de Bourdieu (1991) sobre linguagem e poder simbólico ajuda a compreender essa diferença. A eficácia social de determinadas palavras não pode ser separada das posições ocupadas por aqueles que as pronunciam e das condições sociais que conferem autoridade à fala.
Isso nos obriga a acrescentar uma nova pergunta:
Não apenas o que foi dito, mas quem teve o poder de dizer?
Governantes, professores, jornalistas, líderes religiosos, intelectuais, artistas, influenciadores e instituições possuem capacidades diferentes de fazer determinadas palavras circularem socialmente.
Quando uma classificação é repetida por pessoas investidas de autoridade, ela pode adquirir legitimidade. O que antes parecia uma expressão marginal pode entrar progressivamente no vocabulário cotidiano.
Não necessariamente porque todos passaram a concordar com aquela palavra, mas porque ela passou a fazer parte daquilo que se tornou possível dizer.
A fabricação do “nós” e do “eles”
A vida social envolve diferentes formas de pertencimento e identificação coletiva.
Precisamos de alguma ideia de “nós” para construir comunidades, famílias, cidades e países. Pertencer não é, em si, um problema.
A dificuldade surge quando a construção do “nós” passa a depender da fabricação de um “eles” percebido não apenas como diferente, mas como inferior, indesejável ou ameaçador.
Elias e Scotson (1994), em seu estudo sobre estabelecidos e outsiders, examinaram mecanismos de estigmatização, diferenciais de poder e a construção de imagens coletivas de “nós” e “eles” capazes de sustentar divisões entre grupos.
O mecanismo merece atenção.
Primeiro identificamos uma diferença.
Depois damos um nome a ela.
Em seguida, podemos associar determinadas características às pessoas que recebem esse nome:
“Eles são assim.”
“Eles fazem isso.”
“Eles não respeitam nossas regras.”
“Eles ameaçam nosso modo de vida.”
Pouco a pouco, indivíduos diferentes podem começar a desaparecer atrás de uma identidade coletiva que lhes foi atribuída.
O vizinho deixa de ser o vizinho. O colega deixa de ser o colega. A pessoa deixa de ser Maria, José, Ahmed, John ou qualquer outro nome.
Passa a ser “um deles”.
Talvez esse seja um dos momentos mais preocupantes da linguagem social: quando já não precisamos conhecer uma pessoa para acreditar que sabemos quem ela é.
Do adversário ao inimigo
Uma sociedade democrática precisa conviver com o desacordo.
Podemos defender ideias diferentes, votar em candidatos diferentes, acreditar em religiões diferentes e possuir concepções distintas sobre economia, educação, família ou organização da sociedade.
O adversário faz parte da democracia.
O inimigo é outra coisa.
Do adversário esperamos argumentos que combatemos. Do inimigo esperamos uma ameaça contra a qual precisamos nos defender.
A mudança de uma palavra para outra pode parecer apenas retórica. Mas ela modifica a relação.
Se alguém é meu adversário, disputo ideias com ele. Se alguém passa a ser representado como inimigo, altera-se a própria percepção de seu lugar no espaço comum.
Sociedades não se dividem apenas porque seus cidadãos discordam. O desacordo pode ser saudável. O problema se aprofunda quando grupos deixam de reconhecer a legitimidade da existência social uns dos outros.
A pergunta deixa de ser:
“Como podemos viver juntos apesar de discordarmos?”
e começa a se transformar em:
“Como podemos viver sem eles?”
A palavra repetida
Existe ainda outro elemento: a repetição.
Uma expressão pode causar espanto quando aparece pela primeira vez.
Depois aparece novamente. É reproduzida numa entrevista. Compartilhada numa rede social. Transformada em meme. Repetida por um comentarista. Imitada por milhares de pessoas.
A reflexão de Butler (1997) permite compreender que a força da linguagem injuriosa não se esgota em um ato isolado de fala. Expressões ofensivas operam dentro de convenções e histórias de uso que contribuem para sua inteligibilidade e eficácia social.
Isso muda nossa pergunta.
Talvez não seja suficiente perguntar:
Quem pronunciou primeiro?
Precisamos perguntar também:
Quem repetiu?
Quem compartilhou?
Quem legitimou?
Quem transformou a expressão em algo cotidiano?
E, na sociedade digital, surge ainda outra questão:
Quem amplificou?
Quando entram as plataformas digitais
Durante grande parte da história, a capacidade de falar simultaneamente para milhares ou milhões de pessoas esteve concentrada em poucas instituições.
Era necessário possuir um jornal, uma estação de rádio, um canal de televisão, uma editora ou acesso a uma tribuna pública.
A internet alterou profundamente essa estrutura.
Hoje, uma frase escrita por uma pessoa desconhecida pode alcançar uma audiência muito maior do que seria possível em outros períodos. Isso ampliou extraordinariamente as possibilidades de participação pública: pessoas podem falar, organizar-se, denunciar injustiças e construir comunidades sem depender exclusivamente dos tradicionais intermediários da comunicação.
Mas a mesma infraestrutura permite que hostilidade, estigmatização e linguagem desumanizante também circulem em grande escala.
Em um estudo qualitativo realizado em uma página do Facebook inserida em um contexto específico de conflito político, Harel et al. (2020) identificaram manifestações articuladas de identidade grupal, polarização afetiva e linguagem desumanizante. Os próprios autores apresentam seus resultados dentro das condições particulares daquele ambiente, razão pela qual não devem ser generalizados automaticamente para todas as redes ou contextos digitais.
A velha palavra ofensiva encontrou, portanto, uma infraestrutura nova de circulação.
O insulto que antes terminava numa conversa pode agora ser registrado, compartilhado, comentado e reproduzido por pessoas que sequer se conhecem.
Surge aquilo que podemos chamar, neste ensaio, de multidão digital: pessoas que não precisam compartilhar o mesmo espaço físico para participar da circulação e repetição de uma mesma classificação, insulto ou representação do outro.
Discursos infames
É aqui que proponho uma expressão que pretendo explorar em trabalhos posteriores: discursos infames.
Não utilizo “infame” simplesmente como sinônimo de desagradável, grosseiro ou moralmente condenável.
Nem toda palavra ofensiva constitui um discurso socialmente perigoso.
Proponho, inicialmente, compreender discursos infames como:
práticas discursivas que, em determinados contextos e relações de poder, transformam diferenças em inferioridade, adversários em inimigos e indivíduos ou grupos em objetos socialmente aceitáveis de desprezo, exclusão ou desumanização.
A expressão é utilizada aqui como uma proposição analítica exploratória, e não como categoria jurídica ou conceito já estabelecido na literatura. Seu alcance e seus limites precisarão ser testados em estudos posteriores.
Essa formulação permite fazer uma distinção fundamental.
O problema não está apenas na palavra.
Está também nos processos sociais que podem se formar ao redor dela. Alguns mecanismos merecem particular atenção:
nomeação · classificação · repetição · estigmatização · normalização · exclusão
Esses elementos não constituem etapas necessárias nem uma sequência universal. Podem aparecer isoladamente ou combinar-se de diferentes maneiras.
Não existe, portanto, uma cadeia causal inevitável segundo a qual uma palavra produz estigma, o estigma produz exclusão e a exclusão produz violência.
A linguagem participa de processos sociais muito mais complexos.
Ela pode contribuir para a construção de condições simbólicas pelas quais grupos são classificados, estigmatizados ou percebidos como externos à comunidade. Isso não significa que discursos ofensivos produzam inevitavelmente exclusão ou violência, mas que podem integrar processos mais amplos de polarização e desumanização. O estudo de Harel et al. (2020), por exemplo, evidencia a associação entre identidade grupal, polarização afetiva e desumanização em um contexto digital específico, sem estabelecer uma sequência causal universal entre esses fenômenos.
A exclusão simbólica merece atenção justamente porque a maneira como grupos são nomeados, classificados e representados pode afetar as fronteiras do pertencimento social.
Isso nos obriga a prestar atenção não apenas ao que fazemos com o outro, mas também à maneira como aprendemos a falar sobre ele.
E a liberdade de expressão?
Aqui surge uma questão inevitável e difícil:
Até onde deve ir a liberdade de expressão em uma sociedade democrática?
A liberdade de opinião e expressão constitui uma das condições fundamentais das sociedades livres. Ela permite não apenas manifestar ideias consensuais, mas também questionar governos, instituições, crenças, costumes e posições majoritárias.
Essa proteção seria pouco significativa se alcançasse apenas palavras que ninguém considera incômodas. Uma sociedade plural precisa preservar espaço para divergência, crítica e ideias que podem produzir profundo desconforto.
Por isso, uma reflexão sobre palavras que ferem não pode partir da premissa de que toda palavra ofensiva deve ser proibida.
Garton Ash (2016) situa essa discussão no contexto de um mundo conectado, no qual as possibilidades de expressão foram extraordinariamente ampliadas ao mesmo tempo que abuso, intimidação e outras formas danosas de comunicação podem atravessar fronteiras com enorme facilidade. Sua proposta procura conciliar liberdade e diversidade, preservando uma esfera pública na qual seja possível discordar.
Entretanto, reconhecer a importância da liberdade de expressão não encerra a discussão.
Waldron (2012) propõe uma distinção particularmente útil. Sua discussão sobre hate speech não se concentra simplesmente no sentimento subjetivo de ter sido ofendido. O problema envolve também a dignidade e o status social de membros de grupos vulneráveis e as condições que lhes permitem participar da vida social como integrantes legítimos da comunidade.
Essa distinção é importante para o argumento de Palavras que ferem.
Discordar não é humilhar.
Criticar uma crença não equivale necessariamente a atacar a dignidade de quem acredita nela.
Provocar não é automaticamente discriminar.
Ofender não é o mesmo que incitar violência.
E palavras profundamente desagradáveis não podem ser classificadas automaticamente como aquilo que neste ensaio proponho chamar de discursos infames.
Precisamos distinguir fenômenos diferentes precisamente para não esvaziar a gravidade daqueles que ultrapassam a simples ofensa.
Há ainda uma diferença importante entre responsabilidade ética, responsabilidade social e proibição jurídica.
Uma fala pode ser moralmente reprovável sem que deva necessariamente ser proibida pelo Estado. Da mesma maneira, o fato de determinada expressão ser juridicamente protegida não significa que esteja livre de crítica ou de consequências sociais.
Isso demonstra por que uma discussão séria sobre linguagem não pode ser reduzida a duas alternativas:
“permitir tudo” ou “proibir tudo aquilo que ofende”.
Entre essas posições existe um vasto território ético, jurídico e político.
O conceito de discursos infames, tal como proposto aqui, não pretende constituir uma nova categoria jurídica nem determinar aquilo que deve ser censurado pelo Estado. Seu propósito é analítico: chamar atenção para processos sociais pelos quais determinadas formas de linguagem classificam grupos, constroem fronteiras entre “nós” e “eles”, legitimam o desprezo ou participam de processos de exclusão e desumanização.
Isso permite sustentar simultaneamente dois princípios que não precisam ser tratados como inimigos:
Uma sociedade democrática precisa proteger vigorosamente a liberdade de expressão e, ao mesmo tempo, conservar a capacidade crítica de examinar aquilo que fazemos socialmente com essa liberdade.
A questão, portanto, não é apenas:
“Tenho o direito de dizer?”
Há uma segunda pergunta, de natureza ética e social:
“O que estamos produzindo quando passamos a falar dessa maneira sobre outras pessoas?”
Palavras também reparam
Até aqui falei principalmente sobre palavras que ferem.
Mas seria injusto com a própria linguagem terminar assim.
Palavras também acolhem.
Reconhecem.
Pedem desculpas.
Restituem nomes.
Contam histórias que haviam sido silenciadas.
Reconhecem injustiças.
Permitem que alguém diga:
“Eu estava errado.”
Permitem também dizer:
“Eu continuo discordando de você, mas reconheço seu direito de estar aqui.”
Talvez essa frase simples contenha uma das condições fundamentais para a convivência democrática.
Não precisamos pensar da mesma maneira para compartilhar uma sociedade.
Precisamos, entretanto, preservar alguma forma de reconhecimento mútuo.
E isso nos traz novamente ao começo.
Há palavras que esquecemos.
Há palavras que carregamos por toda a vida.
E existem palavras que, quando socialmente repetidas e legitimadas, podem contribuir para definir quem pertence e quem não pertence, quem merece ser ouvido e quem pode ser desprezado, quem é reconhecido como adversário e quem passa a ser representado como inimigo.
Por isso, talvez devêssemos prestar mais atenção às palavras que escolhemos.
Não porque palavras sejam mágicas.
Nem porque uma sociedade possa resolver seus conflitos simplesmente falando de maneira gentil.
Mas porque a linguagem participa da construção do mundo social que depois habitamos.
Antes de perguntarmos apenas o que estamos dizendo, talvez precisemos formular uma pergunta mais difícil:
Que sociedade estamos ajudando a construir quando falamos assim uns dos outros?
Nota editorial
Este ensaio integra o projeto Palavras que ferem: discursos infames que dividem sociedades, em desenvolvimento no Naturo Academic Research Institute. O projeto investiga as relações entre linguagem, poder, estigma, pertencimento, polarização, desumanização e circulação digital do discurso. O conceito de “discursos infames” apresentado neste texto possui caráter exploratório e será aprofundado e confrontado com a literatura em estudos posteriores.
Referências
Bourdieu, P. (1991). Language and symbolic power. Harvard University Press.
Butler, J. (1997). Excitable speech: A politics of the performative. Routledge.
Elias, N., & Scotson, J. L. (1994). The established and the outsiders: A sociological enquiry into community problems (2nd ed.). SAGE Publications.
Garton Ash, T. (2016). Free speech: Ten principles for a connected world. Yale University Press. https://doi.org/10.12987/9780300161366
Goffman, E. (1963). Stigma: Notes on the management of spoiled identity. Prentice-Hall.
Harel, T. O., Jameson, J. K., & Maoz, I. (2020). The normalization of hatred: Identity, affective polarization, and dehumanization on Facebook in the context of intractable political conflict. Social Media + Society, 6(2), 1–10. https://doi.org/10.1177/2056305120913983
Waldron, J. (2012). The harm in hate speech. Harvard University Press.