Pensar Historicamente como Ato de Cidadania Crítica: Reflexões a partir de Stéphane Lévesque e o Contexto Brasileiro

 

Por :  Dra Zilda Maria A. Matheus

Vivemos um tempo em que o passado é constantemente mobilizado para justificar posições políticas, formar identidades seletivas e legitimar narrativas simplificadoras. Neste cenário de disputas simbólicas e desinformação, pensar historicamente tornou-se uma necessidade urgente. O ensino de História não pode mais se restringir à transmissão de conteúdos cronológicos ou à repetição de versões oficiais: ele deve fomentar a análise crítica, o raciocínio baseado em evidências e a empatia com os sujeitos do passado. Nesse contexto, o livro Thinking Historically: Educating Students for the Twenty-First Century, do historiador e educador canadense Stéphane Lévesque (2008), oferece um referencial sólido para reimaginar a educação histórica como instrumento de cidadania e transformação social.

Para Lévesque (2008), ensinar História de maneira significativa significa desenvolver no estudante uma forma específica de pensamento disciplinar, que se distingue da mera memorização factual. Essa abordagem é estruturada a partir de cinco critérios centrais: significância histórica, evidência, continuidade e mudança, causa e consequência, e empatia histórica. O critério da significância histórica busca compreender por que certos eventos, personagens ou processos são considerados relevantes no tempo, e quais disputas permeiam essa seleção. O uso de evidências convida os alunos a analisar criticamente documentos primários e secundários, avaliando sua autoria, contexto e confiabilidade. Já os critérios de continuidade/mudança e causa/consequência estruturam o raciocínio histórico em termos de transformações e suas conexões lógicas. Por fim, a empatia histórica permite compreender as ações de sujeitos do passado sem anacronismo, reconhecendo os marcos culturais e sociais que delimitavam suas possibilidades.
A aplicação desses critérios em sala de aula implica uma mudança profunda no papel do estudante, que passa de receptor passivo a agente de investigação, formulando hipóteses, interpretando documentos e construindo argumentos históricos. Trata-se, portanto, de uma pedagogia ativa e democrática, que aproxima a escola das práticas do historiador (LÉVESQUE, 2008, p. 23–44).

No Brasil, o desafio de implementar esse modelo é significativo. Ainda persiste, em muitas redes públicas, uma abordagem enciclopedista, que valoriza a reprodução de fatos em detrimento da problematização. Entretanto, experiências inovadoras têm se multiplicado. Segundo Lopes (2019), atividades como a história oral, a análise de jornais locais, a criação de mapas do tempo e o uso de mídias digitais têm ampliado o repertório dos estudantes e promovido seu engajamento. Essas práticas valorizam o território, a memória e a diversidade, e permitem que o ensino de História contribua para a formação da identidade e da cidadania.

Outro ponto relevante é a inserção do pensamento histórico nos documentos curriculares. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) incorpora parcialmente os princípios propostos por Lévesque, sobretudo ao enfatizar a análise de fontes, a construção de narrativas e o diálogo com diferentes temporalidades. No entanto, como apontam Carretero, Bertrán e Lee (2016), o desafio maior reside na formação docente: muitos professores não tiveram acesso a esse referencial teórico em sua graduação, o que limita sua capacidade de implementação em sala de aula.
No campo da História Pública, o pensamento histórico encontra uma de suas aplicações mais potentes. Para Schmidt (2017), a História ensinada deve dialogar com os usos sociais do passado, questionando monumentos, datas cívicas, políticas de memória e representações midiáticas. Isso é especialmente importante em um país marcado por silenciamentos e apagamentos sistemáticos, como o Brasil. Pensar historicamente, neste caso, é também um gesto de justiça epistemológica e reparação simbólica.

A proposta de Lévesque também pode ser adaptada para o ensino digital, com o uso de plataformas que simulem investigações históricas, fóruns de debate e análise de fake news. Em tempos de pós-verdade, desenvolver critérios para avaliar fontes e interpretar discursos históricos se torna uma habilidade essencial.
Assim, pensar historicamente é mais do que um exercício acadêmico: é um ato de resistência frente ao obscurantismo, ao revisionismo ideológico e à banalização da memória. É, sobretudo, uma prática de liberdade. Como educadores, intelectuais ou cidadãos, temos o dever de defender uma educação histórica que forme sujeitos críticos, éticos e comprometidos com a pluralidade.

 

Referências Bibliográficas
CARRETERO, M.; BERTRÁN, F. C.; LEE, P. Pensar históricamente: El enfoque de la investigación en la enseñanza de la historia. Buenos Aires: Paidós, 2016.
LÉVESQUE, S. Thinking Historically: Educating Students for the Twenty-First Century. Toronto: University of Toronto Press, 2008. Disponível em: https://historyhumanitiesacu2017.weebly.com/uploads/5/6/3/2/56328633/levesque_ch2_reading_.pdf. Acesso em: 26 ago. 2025.
LOPES, E. M. T. Ensino de História e formação crítica: possibilidades para além da narrativa. História Hoje, v. 8, n. 16, p. 142–158, 2019.
SCHMIDT, M. A. O lugar da História Pública no ensino de História. História & Ensino, v. 23, n. 2, p. 9–26, 2017.

 

  • Dra Zilda Maria A. Matheus
  • Doutora em Ciências da Comunicação (Turismo) pela ECA/USP, Pesquisadora no Naturo Academic Research Institute.
  • E-mail: contat@naturoinstitute.org7