A Inospitalidade nas Mídias Sociais: Um Ensaio Crítico
Por : Dra Zilda Maria A. Matheus
As mídias sociais se tornaram, nas últimas duas décadas, um dos principais espaços de sociabilidade, expressão e circulação de ideias. Elas conectam pessoas, ampliam vozes e criam comunidades em torno de interesses comuns. No entanto, ao lado dessa promessa de proximidade e diálogo, cresce um fenômeno que precisa ser nomeado: a inospitabilidade digital. Trata-se da experiência de exclusão, hostilidade e agressividade que muitos usuários vivenciam nesses ambientes — um paradoxo em plataformas que se apresentam como abertas e acolhedoras.
O filósofo Jacques Derrida (1997) argumenta que a hospitalidade carrega uma contradição constitutiva: acolher o outro sem restrições é um ideal, mas, na prática, toda hospitalidade é condicional, sempre atravessada por normas, fronteiras e limites. René Schérer (2003) reforça esse entendimento ao compreender a hospitalidade como ethos social, sugerindo que a recusa em acolher o outro constitui uma forma de violência silenciosa. Quando trazemos essas reflexões para o ambiente digital, percebemos que as plataformas, embora ofereçam espaços de encontro, também se tornam lugares de fechamento, onde determinados sujeitos são silenciados, rejeitados ou expostos a agressões simbólicas.
Um aspecto central para compreender essa dinâmica é o fenômeno da plataformização. Segundo Van Dijck, Poell e De Waal (2018), trata-se do processo pelo qual as plataformas digitais se tornam infraestruturas dominantes da vida social, cultural e econômica, mediando desde a comunicação cotidiana até a circulação de informação e bens. Esse domínio não se limita à intermediação de interações: envolve também a imposição de regras algorítmicas, a coleta e a comercialização de dados pessoais, bem como a definição das condições de visibilidade e participação.
No campo da comunicação, a plataformização significa que a produção e o consumo de informações estão subordinados às lógicas algorítmicas que regem o funcionamento das redes sociais (CASTELLS, 2009). Gillespie (2018) aponta que a moderação de conteúdo e a curadoria invisível operada por essas empresas definem o que é considerado aceitável, moldando as fronteiras do discurso público. Assim, o ideal de hospitalidade digital, entendido como abertura ao outro, se torna condicionado por filtros técnicos e econômicos que privilegiam engajamento, lucratividade e performance. Esse cenário reforça a contradição entre hospitalidade e inospitalidade: ao mesmo tempo em que oferecem espaços de encontro e circulação, as plataformas excluem vozes, silenciam narrativas e amplificam conteúdos agressivos ou polarizadores. A inospitabilidade digital, portanto, não é apenas fruto das interações entre usuários, mas expressão de uma estrutura tecnológica e econômica que governa o modo como nos relacionamos online.
A inospitabilidade também se manifesta nos efeitos psicossociais do uso intenso das redes. Twenge (2017) mostra que as gerações hiperconectadas apresentam maiores índices de ansiedade, depressão e sentimentos de isolamento, em grande parte relacionados à lógica da comparação social e à busca incessante por validação. Uma revisão sistemática publicada na Revista Eletrônica Saúde Mental Álcool Drogas (SMAD, 2020) aponta que a exposição prolongada às redes sociais está associada a sintomas depressivos e de ansiedade, além de baixa autoestima. Do mesmo modo, a Revista Acervo Saúde (2022) evidencia a relação entre uso intensivo de mídias sociais, fobias sociais e desenvolvimento de transtornos de ansiedade.
Outro aspecto fundamental é a infodemia, entendida como a sobrecarga de informações, muitas vezes falsas, que gera fadiga cognitiva, estresse e dificuldade de tomada de decisão (PAHO, 2020). O cyberbullying e os discursos de ódio, favorecidos pelo anonimato e pelo chamado “efeito de desinibição online” (SULER, 2004), reforçam ambientes hostis, ampliando a experiência de exclusão digital.
Diante desse cenário, torna-se urgente discutir a inospitabilidade digital como conceito crítico. Não se trata apenas de constatar que as redes sociais podem ser tóxicas, mas de compreender como sua arquitetura, suas lógicas algorítmicas e seus regimes de moderação condicionam quem pode ser acolhido e quem é expulso do espaço de fala. Introduzir essa discussão é abrir caminho para pensar práticas de hospitalidade digital, capazes de resgatar a dimensão ética da convivência online: espaços mais inclusivos, respeito à diversidade e mediação consciente de conteúdos.
Mais do que uma reflexão acadêmica, trata-se de um convite à ação. Se as mídias sociais moldam nossas formas de estar juntos, cabe a nós questionar: queremos espaços digitais marcados pela inospitabilidade e pela exclusão, ou plataformas que reflitam valores de hospitalidade, diálogo e cuidado? Essa é uma escolha que atravessa a tecnologia, a política e a própria saúde da vida em comunidade.
Referências
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 2009.
DERRIDA, Jacques. De l’hospitalité. Paris: Calmann-Lévy, 1997.
GILLESPIE, Tarleton. Custodians of the Internet: Platforms, Content Moderation, and the Hidden Decisions That Shape Social Media. New Haven: Yale University Press, 2018.
PAHO – Pan American Health Organization. Understanding the infodemic and misinformation in the fight against COVID-19. Washington, 2020.
SCHÉRER, René. Hospitalités. Paris: Éditions de l’Harmattan, 2003.
SMAD – Revista Eletrônica Saúde Mental Álcool Drogas. O uso problemático das mídias sociais e seus efeitos psicossociais. v. 16, n. 4, p. 1-10, 2020.
SULER, John. The online disinhibition effect. CyberPsychology & Behavior, v. 7, n. 3, p. 321-326, 2004.
TWENGE, Jean M. iGen: Why Today’s Super-Connected Kids Are Growing Up Less Rebellious, More Tolerant, Less Happy—and Completely Unprepared for Adulthood. New York: Atria Books, 2017.
VAN DIJCK, José. The Culture of Connectivity: A Critical History of Social Media. Oxford: Oxford University Press, 2013.
VAN DIJCK, José; POELL, Thomas; DE WAAL, Martijn. The Platform Society: Public Values in a Connective World. Oxford: Oxford University Press, 2018.
REVISTA ACERVO SAÚDE. Mídias sociais e transtornos de ansiedade: revisão sistemática. v. 14, n. 12, p. 1-12, 2022.
- Dra Zilda Maria A. Matheus
- Doutora em Ciências da Comunicação (Turismo) pela ECA/USP, Pesquisadora no Naturo Academic Research Institute.
- E-mail: contat@naturoinstitute.org7